quinta-feira, 19 de maio de 2011

seu.

É incessante a vontade de você.
Sinto dor nos músculos do rosto, pois meu sorriso é incontrolável agora. Está constantemente presente, e mostra para quem quiser ver, o quão bem você me faz.
Tenho gravada em minha retina a imagem perfeita do seu sorriso, tão contagiante..., e seus olhos, que me dizem sinceramente o quanto as coisas mexem com você.
Nos meus ouvidos tenho a sua voz, cantando as mesmas frases, dizendo as mesmas palavras, ou só rindo, e me enlouquecendo com seus gemidos altos e fortes.
A suavidade e o calor da sua pele estão espalhados por todos os pedaços do meu corpo, que reage involuntariamente a cada lembrança.
Sua boca passeia pela minha pele e demarca território na minha, que não tem mais outras vontades, só a de continuar te sentindo.
Concluo sem mais forças.
Quero mais.

terça-feira, 17 de maio de 2011

(re)começo.

Diante um do outro, pela primeira vez naquela situação, sentiam que se conheciam há muito, e que esperaram anos por aquele momento. Ao primeiro toque tudo que parecia desconexo e sem explicação, fez sentido.
E para que se preocupar com o resto do mundo, quando se tem o universo inteiro ao alcance dos olhos?
Em segundos souberam que as prévias horas inquietas da espera tinham, não só valido a pena, como também sido merecidas e justificadas.
As regras, os receios e as tentativas de controle caíram por terra, com poucos olhares. As expectativas acumuladas ao longo dos dias se mostraram pequenas demais perto da intensidade do momento.
Permaneceram ali por algumas horas, se descobrindo e se encantando com cada pequeno detalhe.
No fim tiveram a certeza que não acabaria naquela noite. 
Era só o começo...

quarta-feira, 27 de abril de 2011

pensamentos.

Tenho falado sozinha bem mais que o normal, se é que existe um nível de normalidade para tal. Percebi que tenho passado dias sem trocar uma palavra com outras pessoas. Só ouço minha voz quando me percebo cantando algo, ou quando encontro um vizinho, chegando ou saindo e, por educação, cumprimento. Eu sempre fui de falar pouco, e tenho problemas com comunicação desde que me lembro, mas acho que as coisas tendem a piorar agora.

Ando lendo bem mais também. O que passar pela frente, contos, crônicas, romances, poemas, noticias relevantes, outras nem tanto, até os livros didáticos da faculdade tem tido seu papel. Tudo isso para tentar ocupar a mente inquieta e voltar a ter um pouco de concentração para, talvez, me livrar dos demônios que domam meus pensamentos.
Mas como se pôde perceber, ainda não tive muito sucesso nisso.

Lembro constantemente do meu salto de pára-quedas no final do ano passado. Nem tanto por todas as sensações que o momento me proporcionou, a liberdade, o poder, a possibilidade de perceber quão pequena é cada pessoa, ver como o lugar era bonito. Mas mais por recordar que no exato momento da queda, eu não pensei em nada. A adrenalina era tanta e eu estava tão maravilhada com a situação que minha mente ficou finalmente limpa, livre de qualquer tormento.

E durante mais uma tentativa frustrada de ocupar e ao mesmo tempo esvaziar a mente, divago e escrevo.

sábado, 9 de abril de 2011

ponto.

Sinto-me como aquela camiseta velha no fundo do armário, rasgada e desbotada 
Acho que eu fui gastando com o tempo Perdendo alguns vocábulos aqui e ali Os verbos já foram todos usados As citações se esgotaram Minhas mãos doem, não sinto mais a ponta dos dedos As letras do teclado também desapareceram A cafeína não faz os neurônios funcionarem como deveria Os substantivos fogem de mim como pessoas cansadas o fazem com o trânsito interminável das grandes metrópoles Não sobraram adjetivos Inspiração, então, há muito não me aparece
Mas continuo com o mesmo problema de sempre
Os pontos finais

E a quem interessar, saiba
Restaram apenas frases mal formadas e usadas demais
Mas ainda há um tanto de vontade de amontoá-las e colocar na tela.

quinta-feira, 3 de março de 2011

problema.

Eu estava encarando ele, já nem sabia mais há quanto tempo. Me perdia entre os pensamentos que via expressados na feição compenetrada dele.

Olhava sua boca se mover enquanto falava, ou mesmo parada enquanto divagava sobre algo, e quase conseguia senti-la em minha pele. Mas ao mesmo tempo tentava prestar atenção ao que dizia, para que minha presença ali não parecesse sem sentido.

Tentava ver além de seus olhos, saber em que ele pensaria depois que fosse embora. No assunto discutido, no que faria no dia seguinte, talvez em alguma conta a pagar, no jantar. 
Gostaria que fosse em mim.

Via suas mãos se movendo, segurando o lápis, rabiscando algo, riscando em seguida, tentando encontrar a solução para o problema. Imaginava que tipo de habilidade elas poderiam demonstrar em outras situações.

Me desconcentrava novamente no mar que eram seus olhos. E nas curvas bem desenhadas de seus lábios.

Às vezes falava sem parar, tentando encontrar soluções e parecer inteligente, quem sabe mais atraente, ou apenas chamar sua atenção de alguma forma. Não podia sequer dar a entender algo como aquilo, me controlava.

Ao mesmo tempo em que ficava desanimada por ter as condições adversas tão presentes, me sentia mais empolgada ao perceber cada uma delas.

Queria saber seus hobbies, se tínhamos mais algo em comum. Que tipo de música gostava, o que gostava de comer, banalidades apenas... Não tinha como surgir um assunto desses em um momento daqueles. Continuava sem saber e esperava por um momento oportuno para perguntar-lhe algo sobre sua vida.

Fazia alguns comentários engraçados com o fato de não encontrarem uma solução, só para conseguir ver seu sorriso por alguns instantes. Sempre que podia sorria de volta. Já ouvira várias vezes que tinha um sorriso bonito e achava que era uma boa hora para acreditar e usar isso.

Outra pessoa entrou na sala. E depois de algum tempo demonstrou onde estava o erro. Com tudo resolvido fui embora, pois já estava atrasada.
Mas desejava intensamente que aquela pessoa nunca tivesse chegado, para que pudesse continuar ali, me perdendo nele.

Acharia, com certeza, outros problemas insolúveis para poder voltar.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

buk.

Sentada naquele canto quase escondido eu podia ver todo o quarto e parte do banheiro.
O cheiro no ar era uma mistura podre de bebidas, suor, sujeira, sexo e perfumes baratos. A poltrona em que me sentava era velha, visivelmente surrada e com uma grande mancha no braço esquerdo, que eu preferia não tentar descobrir a que pertencera.

Presenciava várias cenas ali. Porres, brigas, ressacas, beijos, vômitos, copos esvaziavam e enchiam novamente, pessoas entravam, sentavam, falavam sem parar, e finalmente iam embora. Ele ficava, mas quase nunca sozinho.
A escassez de luz no cômodo me fazia perder alguns detalhes. Durante boa parte do dia o lugar ficava vazio. Era de noite e de madrugada que a movimentação tomava o quarto, o que piorava minha situação.

Certa noite, o vi entrar no quarto com duas garrafas de vinho e uma mulher. Essa eu nunca tinha visto. Conforme ele enchia os copos e ela tirava parte da roupa, minha visão foi ficando embaçada.
Comecei a sentir um calor que não era típico do ambiente, vozes de pessoas que não estavam lá, um balanço esquisito e involuntário no corpo. O desconforto por me perceber sentada em algo que não era a poltrona, a claridade excessiva e o volume crescente de vozes fizeram com que tudo viesse à tona, como o tranco de um corpo no final de um salto de Bungee Jump.

Era um dia comum de verão em um país tropical, eu me encontrava sentada dentro de um ônibus lotado lendo “Notas de um Velho Safado”.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

riacho.

Sentia uma angústia crescendo dentro de si há dias. Via o movimento dos ponteiros do relógio na parede, prestava uma atenção no tic-tac digna de um médico cirurgião, e em sua cabeça repetia continuamente: um-dois, um-dois. 
Levantou-se, pegou a garrafa de café e se serviu. Já estava frio e no fim. Péssimo, tinha sido passado há horas, talvez no dia anterior. Tomou mesmo assim.
Agora, na sala, olhava pela janela. Um rato atravessava a rua como se a possuísse, e naquele momento ela era só e inteiramente dele. O céu estava nublado, e a leve brisa fazia com que as folhas das escassas árvores balançassem em uma valsa lenta e compassada. Clima típico da época do ano, do local, da fase da Lua, da previsão do tempo, do seu humor.
Sentou-se novamente em seu quarto. A inquietação ia aos poucos tomando conta de seu corpo. Começou por chacoalhar uma das pernas. Depois foi a caneta que insistia em pular de sua mão e se jogar no chão ou na mesa. Estalava os dedos, os punhos, os pés, até nada mais fazer barulho, e recomeçava.
Um-dois um-dois  um-dois    um-do     um        um.
E então conseguiu.
As palavras fluíam de seus dedos. Eram gotas em um riacho que acabara de transpor sua barragem.
Um parágrafo. E outro. E um terceiro...
Não ouvia mais o relógio, não pensava mais no rato da rua, não mais sabia se balançava as pernas. 
Só escrevia.
Quando o riacho se acalmou, deitou na cama e dormiu o sono que lhe havia faltado nos últimos dias.